segunda-feira, 26 de junho de 2017

Planejamento entre Turismo e Esporte é essencial para captação de visitantes para o Brasil

       A criação de um calendário para os eventos esportivos no País bem como um alinhamento entre as entidades e federações que representam o Turismo e o Esporte estão diretamente ligados ao potencial número de visitantes que o Brasil captará nos próximos anos. A conclusão é de diversos especialistas do setor que se reuniram, na segunda-feira (19), no seminário Caminhos para o Turismo Esportivo, promovido pelo Conselho Empresarial de Turismo e Hospitalidade (Cetur) da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O evento foi transmitido ao vivo por teleconferência e prestigiado por representantes do Cetur tocantinense.

      “Vemos hoje uma grande necessidade de unir as autoridades em torno de um consenso para melhorias nos processos do Turismo e suas diferentes facetas. O esporte é um grande ativo turístico, e precisamos nos mobilizar em torno dessa atividade”, destacou, na abertura do encontro, o presidente do Cetur, Alexandre Sampaio.
         A professora Maureen Flores, mediadora do evento, deu o tom da discussão, afirmando que “não podemos mais nos dar ao luxo de sermos amadores. Os grandes eventos passaram e estamos hoje buscando um novo papel do que é o Turismo esportivo”, disse.
      O secretário nacional de Esportes de Alto Rendimento do Ministério do Esporte e ex-atleta olímpico, Luiz Lima, chamou a atenção para o incentivo à prática de esportes amadores pelas orlas do País. De acordo com Lima, apenas no Rio de Janeiro assessorias esportivas mobilizam, em média, 30 mil pessoas por dia.
       “Com esses números notamos que o Rio recebe – diariamente – uma maratona. Temos que aproveitar os ícones do esporte que hoje dão aulas na orla da cidade (Jacqueline Silva, Robson Caetano, Rico, entre outros) e estimular a vinda de pessoas de outras partes do País para a prática do esporte”, afirmou. Para Lima, os hotéis deveriam criar parcerias com assessorias esportivas e oferecer descontos e pacotes aos interessados.
      A exemplo do que já acontece mundo afora, a Maratona do Rio, realizada para atletas profissionais e amadores na capital fluminense no último domingo, injetou cerca de R$ 200 milhões na economia da cidade e reuniu 33 mil pessoas.
          “Sabemos que 63% das pessoas trazem acompanhantes nas provas. Não são necessariamente atletas, mas consumidores. As cidades e redes hoteleiras têm que se adaptar a esses eventos e oferecer ao turista o que eles precisam. No caso da maratona, café da manhã diferenciado e horários flexíveis de entrada e saída”, acrescentou João Traven – sócio-diretor da Spiridon, empresa realizadora do evento.
Legado dos grandes eventos
         O diretor do Departamento de Desporto Militar (DDM) do Ministério da Defesa, almirante Paulo Zuccaro, contou que, apesar de o investimento militar no esporte ser de longa data, os maiores incentivos começaram a partir de 2008, quando o ministério lançou projeto visando ao melhor rendimento dos atletas nos Jogos Militares de 2011, o que levou o Brasil a alcançar o primeiro lugar no quadro de medalhas. Os programas continuaram para além dos grandes eventos sediados no Brasil.
       “Mas vale ressaltar que, para que os grandes eventos sejam bem-sucedidos, é necessário também segurança, bom planejamento e uma forte agenda cultural paralela”, afirmou.
          Já para o ex-ministro do Esporte e Turismo e diretor do Grupo Bandeirantes de Comunicação, Caio de Carvalho, o Brasil estagnou após os Jogos Olímpicos de 2016. Para ele, o País fez com que o mundo se apaixonasse durante a Copa de 2014 e a Olimpíada e não seguiu com uma iniciativa para estimular os jovens atletas.
          “O esporte deve estar na educação. Temos que trabalhar na base, na escola e criar centros de excelência que possam ser multiplicados. A Olimpíada era a grande oportunidade que tínhamos para seduzir os brasileiros. Turismo esportivo pressupõe trabalhar o talento, já que essa é a matéria-prima da cadeia esportiva”, comentou.
           O ex-jogador da Seleção Brasileira de Vôlei e secretário municipal de Esporte e Lazer de Belo Horizonte, Bebeto de Freitas, compartilha da mesma opinião e acrescenta ainda a falta de calendários esportivos no Brasil.
        “A relação do Brasil com o esporte vem da cultura. Quando se fala em verba pública, é necessário que se tome algumas providências. Temos inúmeras quadras e escolinhas malfeitas e, por isso, não somos capazes de treinar os estudantes. Agora, pela primeira vez, temos um volume de recursos construídos desde 2007 e não temos quem use”, disse.
          Bebeto também criticou o calendário de esportes brasileiro. “Calendário é poder. Com ele, conseguimos atrair visitantes às cidades e ao País. Seguimos lutando com as federações e confederações que não se preocupam com isso, deixando sempre a desejar. Nos jogos de NBA americanos, por exemplo, quando o torcedor compra um ingresso, a ele é imediatamente oferecido um outro jogo em cidade distinta, estimulando as viagens dentro do país. No Brasil, isso não é feito”, acrescentou.
Big Data a favor do esporte e do turismo
          Para o coordenador do Laboratório Nacional de Computação Científica, Fabio Porto, os números são de extrema importância para a definição de estratégias em torno do esporte e do turismo. Para ele, é preciso, no entanto, interpretar os dados disponíveis. “Com as informações coletadas, consigo saber a viabilidade da construção de um estádio em determinada cidade. Consigo ainda entender o que um atleta deve melhorar em sua performance e, assim, seguimos melhorando o desempenho das instalações e de seus ativos, os esportistas, sejam eles amadores ou profissionais”, apontou.
         O CEO da agência italiana Travel Appeal, Mirko Lalli, que falou diretamente da Italia por videoconferência, também desenvolve o uso do Big Data para a criação de projetos turísticos em diferentes cidades. Ele mostrou como grandes países conseguiram usar os dados a seu favor e aumentar o potencial de cidades como destino esportivo. Segundo ele, o esporte já é responsável por 55% do turismo australiano. A cidade de Barcelona dobrou o número de turistas após a Olimpíada de 1992. Mirko complementa que é essencial estudar os números para que possamos entender o que os visitantes buscam em suas experiências turísticas: “rankeamento, reputação, posicionamento da busca no Google e qualidade do sistema digital – os jovens querem seguir postando nas redes sociais e se comunicando com as suas tribos, o que torna essencial a boa conexão”, revelou.
Exemplos de êxito
            O último painel abordou iniciativas de êxito para o Turismo e o Esporte no Brasil. Maria Luiza Dias, gerente de Desenvolvimento Físico-Esportivo do Sesc-SP, apresentou as ações da instituição voltadas para o esporte e a inclusão social. Segundo ela, o Sesc-SP trabalha com uma visão do esporte para todos, com educação para e pelo esporte. “Acreditamos que é uma oportunidade para o público estar próximo tanto dos eventos esportivos e também da prática esportiva”, afirmou.
            A gerente do Sesc-SP apresentou programas como o Dia do Desafio, que em 2017 contou com mais de 43 milhões de participantes em todo o mundo (O Sesc é o organizador no Brasil) e consiste em um único dia de diversas atividades, com o intuito de estimular a prática de atividades físicas e a sua inserção no cotidiano das pessoas.
         Já Ricardo Trade, ex-diretor da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), falou sobre os eventos que envolvem o vôlei brasileiro. Segundo ele, o voleibol realiza mais de 70 eventos por ano, um esforço que nasce da conversa entre a CBV e as prefeituras e patrocinadores locais, e a união entre Turismo e Esporte é de suma importância. “O Turismo é a atividade econômica que vai salvar o nosso país”, completou.