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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Nas relações comerciais com a China, a Austrália de hoje poderá ser o Brasil de amanhã, adverte especialista

A China vem aumentando de forma significativa o uso de medidas contra a Austrália impondo pesadas tarifas sobre alguns dos principais produtos da pauta exportadora australiana como a cevada, carne, algodão, carvão e, mais recentemente, os vinhos. A ação faz parte da estratégia lançada pelo governo chinês em resposta depois que a Austrália pressionou por uma investigação internacional sobre a origem do novo coronavírus e o primeiro-ministro australiano, Scott Morrisson enviou uma carta aos líderes do G20 em busca de apoio para a investigação.


Segundo um especialista em comércio exterior, que falou ao Comexdobrasil.com sob a condição de anonimato, “a forte ofensiva chinesa deveria servir de alerta para o governo de Jair Bolsonaro pois se a escalada verbal lançada pelo presidente e seguida por sucessivas manifestação de seu filho e deputado Eduardo Bolsonaro e integrantes do primeiro escalão do governo continuar, o Brasil poderá ter um alto preço a pagar.É importante que o governo brasileiro esteja atento aos fatos recentes nas relações comerciais entre a China e a Austrália pois o mesmo poderá acontecer num futuro próximo no intercâmbio do Brasil com a China”.

Existem importantes diferenças mas também grande similaridades entre as relações da Austrália e do Brasil com a China. Em comum, há o fato de que a exemplo do que acontece com o Brasil, a China é o principal parceiro comercial dos australianos, com uma corrente de comércio (exportações+importações) da ordem de US$ 170 bilhões, bem superior ao fluxo entre o Brasil e a China, no total de US$ 98,6 bilhões em 2019 e que este ano superará a cifra de US$ 100 bilhões. A China é o destino de 39% das exportações australianas e absorveu, no ano passado,28,1% do total exportado pelo Brasil em 2019, participação que cresceu para 33,6% de janeiro a outubro deste ano.

Outras semelhanças são facilmente identificáveis quando se analisa as pautas exportadoras brasileira e australiana para a China. Da parte brasileira, apenas três commodities (soja, minério de ferro e petróleo) foram responsáveis por 77% de todas as exportações brasileiras para a China nos dez primeiros meses deste ano. Em relação à Austrália, grande parte das vendas aos chineses se concentram em minério de ferro, gás natural e carne bovina.

Com relação ao minério ferro (com uma participação de 25% nas vendas brasileiras para o país asiático), principal item da pauta exportadora australiana no comércio com os chineses, a China compra pouco mais de 80% do minério de ferro exportado pela Austrália, equivalentes a 60% das necessidades chinesas dessa commodity, e que deve gerar este ano uma receita entre US$ 70 bilhões e US$ 80 bilhões para as mineradoras australianas.

De disputa geopolítica a guerra comercial

A acirrada disputa geopolítica entre China e Austrália teve inicio no mês de abril, depois que a Austrália pressionou por uma investigação internacional sobre a origem do novo coronavírus e de lá para vem ganhando maior intensidade, com a adoção de medidas unilaterais adotadas pela parte chinesa..

Em meados do mês de maio, o contencioso avançou de uma troca de declarações políticas para o plano comercial e a China anunciou a imposição de uma tarifa antidumping de mais de 80% sobre as exportações de cevada, em um duro golpe para esse segmento do agronegócio australiano, que desfrutava de tarifa zero estabelecidas no acordo de livre comércio firmado pelos dois países.

Pouco depois, as autoridades chinesas proibiram as exportações de carne bovina de quatro frigoríficos australianos devido a problemas de rotulagem e certificação incorretos.

No mês de junho, o governo de Pequim desaconselhou os cidadãos chineses a visitar e estudar na Austrália, alertando para o crescente racismo e discriminação contra pessoas de etnias asiáticas, e chinesa em especial, em território australiano. Um duro golpe, pois os turistas e estudantes chineses são os principais contribuintes para o turismo australiano e também em relação ao intercâmbio internacional de estudantes.

No dia 27 de novembro, a China desferiu um novo golpe contra os australianos ao anunciar a imposição de medidas antidumping sobre as importações de vinhos daquele país. As tarifas oscilam entre 107,1% e 212,1%, o que praticamente inviabiliza as exportações da bebida para o mercado chinês.

As medidas retaliatórias colocadas em prática pela China são um duro golpe para as exportações australianas. Por enquanto elas não atingem o item principal da balança comercial bilateral, o minério de ferro, mas envolvem outros itens importantes da pauta exportadora australiana.

No tocante à cevada, por exemplo, a China é o maior mercado de exportação da Austrália e responde por cerca de 70% das vendas externas do produto, com um receita anual da ordem de US$ 855 milhões nos últimos anos. De acordo com o Australian Bureau of Agricultural and Resource Economics and Sciences, a China é um “mercado premium” para a cevada australiana.

A carne bovina é outro produto em relação ao qual a Austrália tem na China seu principal mercado, respondendo por cerca de 25% das exportações australianas. Em 2019, o total embarcado foi de 300 mil toneladas, no valor de aproximadamente US$ 1,9 bilhão. Os quatro frigoríficos proibidos de exportar carne bovina para a China respondem por cerca de 35% dos embarques para o país asiático.

E a fonte lembra que nada existe de ilegal nas medidas de defesa comercial adotada pela China contra a Austrália: “ainda que muitos tenham vislumbrado motivos políticos na ação chinesa, cada uma das medidas surgiu de uma violação comercial legítima. A imposição de tarifas pela China sobre a cevada, um importante produto da pauta exportadora australiana, por exemplo, resultou de um minucioso processo investigativo de antidumping que se arrastou por 18 meses”.

Ao contrário do que acontece nas conturbadas relações entre os Estados Unidos e a China, a disputa China-Austrália não pode ser classificada como uma “guerra comercial” e o motivo é simples: em momento algum o governo australianos adotou medidas retaliatórias contra os chineses.

Depois que as taxas foram imposta sobre as exportações de cevada, dando início ao contencioso bilateral, o ministro australiano da Agricultura, David Littleproud, evitou falar em “guerra comercial” porque outras exportações, como as de minério de ferro, continuaram registrando altas expressivas. As vendas atingiram números recordes no primeiro semestre, graças à rápida recuperação industrial chinesa, após suspensão dos bloqueios gerados pela Covid-19. Com isso no mês de junho, as exportações de minério de ferro alcançaram o maior valor mensal com uma receita da ordem de US$ 7,1 bilhões.

Apesar disso, em outubro o governo da China voltou agir e instruiu verbalmente s usinas de energia e as siderúrgicas estatais, além das fiações de algodão, a não importar produtos australianos. Ainda em outubro, a China proibiu a importação de madeira de Queensland, os embarques de cevada do exportador Emerald Grain e atrasou os desembarques de lagosta australiana em Xangai.

A qualquer momento, é de se esperar que a China venha a barrar formalmente as exportações australianas de cevada, açúcar, vinho tinto, madeira, carvão, lagosta, minério e concentrados de cobre, além de trigo.

Se vier a ser integralmente implementado, o bloqueio às exportações de carvão térmico, usado nas usinas elétricas, e de carvão de coque, para a produção de aço, terá grande impacto no comércio sino-australiano. Em 2018/2019, as vendas totalizaram US$ 10,7 bilhões. O carvão é o terceiro principal produto exportado pela Austrália para a China, perdendo apenas para o minério de ferro e o gás natural.

Ao que tudo indica, o minério de ferro será mantido à margem nesse contencioso. Segundo o Global Times” é muito difícil que a commodity venha a ser alvo de uma medida concreta por parte do governo chinês, devido à elevada dependência que a China tem do produto importado.

Mas o jornal emite uma sinalização importante ao informar que os importadores chineses estariam à procura de fontes alternativas de minério de ferro na África e especialmente na Guiné, para suprir suas necessidades, além de buscar um aumento nas importações junto à brasileira Vale.

Nesse contexto, a escalada diplomática contra a China, lançada pelo presidente Jair Bolsonaro e reverberada pelo seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, e por integrantes do primeiro escalão do governo, como o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, poderá custar caro ao Brasil.

As declarações públicas e postagens feitas nas redes sociais pelas autoridades brasileiras vêm sendo acompanhadas atentamente pela embaixada chinesa em Brasília e num futuro não muito distante o governo chinês poderá passar do discurso para a prática e, a exemplo do que vem acontecendo com relação à Austrália, dar início à imposição de pesadas e progressivas sanções contra produtos exportados pelo Brasil para o país asiático, o maior parceiro comercial do Brasil em todo o mundo.

Com amplo conhecimento sobre o atual momento das relações entre a China e a Austrália, o especialista em comércio exterior adverte que gerar e incentivar uma guerra verbal com a China não é nem deveria ser do interesse de nenhum integrante do governo brasileiro e que as declarações e postagens anti-China não atendem ao interesse nacional e podem causar grandes prejuízos ao comércio exterior brasileiro caso o governo chinês venha a colocar em prática medidas retaliatórias contra o Brasil, a exemplo do que vem fazendo em relação à Austrália.

De acordo com o especialista, “essas declarações podem ter um duro e grave efeito bumerangue e, se persistirem, é inevitável que elas se voltem contra o Brasil. É questão de tempo. E existe tempo, ainda que exíguo, para evitá-las. Não se pode partir da premissa de que por ser grande importadora de soja e minério de ferro brasileiros a China se torne refém do Brasil. A China é o principal parceiro comercial do Brasil e é também um grande investidor no país.Segunda maior economia do planeta, a China tem poder político e musculatura econômica e sabe qual é o melhor momento para usá-los. O Brasil nada tem a ganhar criado um desnecessário e contraproducente contencioso com seu maior parceiro comercial em todo o mundo”.

Fonte: COMEX 
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